Brama Veda


                      

Nesta vida, o que me da mais prazer são os raros momentos de felicidade!

 

André Maronna



Escrito por André Maronna às 22h18
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Limitada Felicidade

Simplesmente acordei e parecia que estava sonhando, pois tinha a nítida sensação de estar acordado, mas insistia em não abrir meus olhos.

 

Ouvia o barulho dos carros e sentia que já era dia, mas não conseguia abrir os olhos e isso me incomodava. Coloquei as mãos no rosto e machuquei meus olhos forçando um movimento que não poderia.

 

O pior então se anunciava! Cego!

 

Por um momento parecia amparado por algo que não saberia descrever e me coloquei imediatamente a pensar no que faria!

 

Senti raiva, ódio, desejo incontrolável de sumir e uma sensação de impotência maior ainda. A simples tarefa de descer as escadas passou a ser o maior obstáculo.

 

Por ironia do destino, estava só e não podia reclamar ou chorar para ninguém! Fiquei só, sentindo o cheiro do meu cão amigo e imaginando sua imagem projetada no local que me era familiar pela lembrança imediata. Passo então a prever locais onde ia tateando de forma tranqüila e precavida percebendo com tristeza que o resto de minha vida seria desta maneira.

 

O telefone toca e só de ouvir a voz do outro lado começo a falar ininterruptamente causando espanto e curiosidade uma vez que nunca agira desta forma. Começo contando que faria uma viagem e me vejo descrevendo as avenidas, paisagens e cartões postais de algumas cidades da América do Sul. Percebo que nunca mais poderei ver locais que sonhara a vida toda conhecer. Percebo que mais do que conhecer esses locais não poderei nunca mais estudar como o fazia, pois meus livros nunca mais terão a valia que sempre tiveram. Como poderei me especializar no que sempre sonhei, como poderei ser um professor sendo cego... Como iria me atualizar? Como faria para montar as aulas? Enfim, tudo é desesperador... Meu sobrinho cresceria e eu perderia toda essa fase apenas ouvindo as pessoas comentarem o quanto cresceu e o quanto é bonito sorrindo!

 

Como iria encontrar com a minha Avenida Paulista sem ver o Masp, ou ainda, passear no Parque Trianon contemplando a natureza em meio à avenida mais representativa de São Paulo.

 

Como seria possível enxergar as adversidades que tanto me encantam e entristecem? Não sei como lidar com isso!

 

Como faria para encarar a pessoa que tanto amo não podendo mais ver o lindo brilho de seus olhos? Como me justificaria por ter deixado de lhe mostrar tantas coisas bonitas que sempre estiveram a nossa disposição e que nunca ousamos conhecer?

 

Como me conformar por ter me permitido deixar de viver em alguns momentos para sustentar momentos não meus, torpes e sem valia alguma? Até onde valeu a pena fingir viver num momento de existência simples e vazia?

 

Hoje vazios são os meus pensamentos que não conseguem ver cores nem gestos, muito menos pessoas. Como poderei sobreviver sabendo que terei apenas de esperar a morte? Sabendo que o futuro me reserva apenas a escuridão! Paisagens escuras, imagens turvas sem definições e um imaginário que guarda como se fosse uma foto, momento ainda vivo na mente que levarei para sempre como últimas sensações que vi em vida.

 

Pelo menos a chuva ainda seria sentida da mesma forma que sempre fiz uma vez que sempre fecho os olhos e contemplo essa maravilhosa sensação.

 

No mais, me sinto só... Sem perspectivas e com um medo maior do que eu... Algo que não combina comigo, mas que já é mais forte que eu.

...

 

Hoje, enquanto escrevo, sinto que ao acordar tive a melhor sensação que se pode ter que é a certeza de poder enxergar e ao mesmo tempo sinto uma tristeza enorme por perceber nessa ausência criada pelo inconsciente em meu sono que tenho muito mais do que poderia querer e que a visão é sim, um grande limitador, mas que só cabe a mim, viver aproveitando cada segundo de vida.

 

O quanto deixamos de fazer? E por nada!

 

Momentos de incerteza aliados ao medo são limitadores da felicidade!

 

A felicidade é o único motivo para vivermos nesse plano espiritual, portanto se vamos viver em função do medo é melhor fazer logo as malas para o além, pois aqui, sendo assim, continuaremos sendo ninguém!

 



Escrito por André Maronna às 10h25
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